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(o blog às moscas)

Já devia ter vindo aqui dizer que está tudo bem, que não tenho tempo e que assim será durante mais três semanas. Mas – lá está! – não tenho tido tempo e quando tenho a cabeça está tão cansada, coitada, que não me lembro. É aterrar com um livro, ler duas linhas e adeus, até amanhã.

Por isso esta semana não há 4 por 6, perdoem-me. A coisa aligeira na terça, mas depois fujo uns dias. Quando voltar, mais dureza e dias sem horas que cheguem.

Mas eu volto, já, já, que o meu delicious ali ao lado diz-me que tenho 1000 receitas à espera e que delas só fiz umas 60. Muito caminho para andar, portanto. E levo-vos comigo, pode ser? Até já!

food is about community

[Chef] Felder told us about what she’d done the day before. She had gone to an organic strawberry farm and picked strawberries. She had then gone to a farm that grew peas, and she picked peas. From there she went to a farm that raised chickens and bought chickens that had been butchered that morning. She returned home, snagged some grape leaves, lettuce and herbs from her garden, and, surprised by all this Hudson Valley bounty, asked six people to dinner. “That is what food is all about,” she said. “Food is about community. It’s about the earth and really taking care of the earth.”

 

Do livro The Making of a Chef, de Michael Ruhlman.

Cá por casa ainda não há crianças. E este 4 por 6 vem uma semana atrasado relativamente ao dia da criança. Mas enquanto tentava montar o prato para as fotografias ocorreu-me que parecia comida de brincar. De comer a brincar, pelo menos. Um prato assim, desconstruído, de onde apetece beliscar daqui e dali.

4por6

Esta semana portámo-nos um bocadinho mal. Trazemos uma sugestão que é assim quase prima do hamburger com batatas fritas. Que não tem nada de mal, de vez em quando. Nós somos grandes fãs de hamburger com batatas fritas. Mas comer fritos não é muito bom para a saúde, como todos sabemos. Olhem, foi o nosso pecado do dia da criança. Para fazer felizes as crianças que vivem em nós!

4 por 6 0806 II

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Almôndegas de porco com chips sortidas

Almôndegas

  • 440g carne de porco picada
  • 4 colheres sopa de queijo parmesão (se for do fresco ralado na hora melhor ainda)
  • 3 colheres sopa de bacon ralado (usei o microplane)
  • 1 cenoura grande ralada fina
  • 3 dentes de alho ralados
  • 1 colher café de cominhos
  • 1 colher café de paprika
  • 1 colher chá de sal fino
  • 1 colher café de alecrim em pó (eu desfiz o seco no almofariz)
  • 1 pitada de piri-piri em pó
  • 1 ovo
  • farinha de mandioca para dar liga (ou pão ralado)

Num recipiente grande, colocar a carne de porco, as especiarias, parmesão, alho, bacon, cenoura e misturar tudo muito bem – primeiro com um garfo, depois com as mãos. Acrescentar o ovo e misturar. Ir adicionando aos poucos a farinha de mandioca (que usei por não haver pão ralado em casa) até conseguir uma massa moldável.

Moldar pequenas bolas (eu prefiro almôndegas pequeninas, daquelas que dão uma trinca, duas no máximo), que podem ser congeladas. Estes ingredientes fazem aproximadamente 45 pequenas almôndegas (sendo que, por pessoa, eu recomendo 10 para adultos e 8 para crianças).

Prefiro cozinhar as almôndegas descongeladas, sobretudo se não as vou cozinhar em molho (como faria para preparar um prato de pasta e almôndegas em molho de tomate). Portanto descongelei-as. Pincelei uma frigideira grande e anti-aderente com uma colher chá de azeite e quando estava quente acrescentei as almôndegas, que fritei/grelhei dos dois lados, até estarem cozinhadas por dentro mas não secas.

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Chips sortidas

  • 2 batatas grandes
  • 1 batata doce grande
  • 2 beterrabas médias

Com a ajuda do mandolim, cortei todos os tubérculos em fatias finas. Coloquei-os em água gelada durante cinco minutos. Escorri, sequei-os bem e fritei em óleo bem quente. Quando prontas, sequei-as bem em papel absorvente e temperei com flor de sal e orégãos.

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Salada de alface e nozes

  • 1 alface média
  • 1 punhado de nozes
  • 5 colheres sopa de azeite
  • 2 colheres sopa de vinagre de vinho tinto
  • 1 colher chá de mostarda
  • sal

Lavei as folhas de alface, sequei-as bem e cortei-as em fatias finas. Acrescentei as nozes cortadas em metades e temperei com uma vinagrete feita com o azeite, o vinagre e a mostarda, bem batidos até formarem uma emulsão. Misturei bem e polvilhei com flor de sal.

4 por 6 0806 I

Cá em casa não somos os maiores fãs de almôndegas. Nunca as compramos já prontas. Nunca as comemos em restaurantes. Isso porque achamos que as almôndegas são sempre mal feitas. As dos restaurantes são feitas com restos de carne e, por isso, já perdem em sabor e qualidade. As congeladas… bem, essas não sei o que se passa com elas, mas a verdade é que não sabem bem. Por isso preferimos fazer as nossas. É muito fácil e num curto espaço de tempo fazem-se almôndegas suficientes para várias refeições, que se podem congelar e guardar para quando for mais conveniente. E se forem bem feitas e bem temperadas podem ser deliciosas. Estas são muito saborosas!

Os chips sortidos foram uma surpresa. A batata doce muito saborosa, a beterraba também. E as de batata, as normais, são sempre deliciosas. Eu também sou daquelas que tem um fraco por batatas fritas. Das boas, que das congeladas dispenso.

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Para a sobremesa, cerejas de saco, as minhas favoritas, rijas e sumarentas e doces. Vieram directamente de Resende, do Festival da Cereja, onde os meus pais foram no dia 31 de Maio.

E as contas:

4 por 6 08-06

As cerejas não eram bem estas, mas até foram mais baratas. As contas estão feitas para as 45 almôndegas que consegui, sendo que aqui na receita se usará, no máximo, 40.

Cá em casa não é muito habitual sobrar comida. Mas às vezes acontece, como em todo o lado. E há sobras que são realmente difíceis de aproveitar.

Eu não gosto, mesmo nada, de carne de porco re-aquecida. Daquela que sobra de um assado, por exemplo. Prefiro comê-la fria, numa sanduíche bem montada, do que aquecê-la. Acho que o sabor se transforma completamente e fica assim uma coisa… má. Eu até dizia horrível, mas sempre me ensinaram que não se diz mal da comida…

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(pronto, baixinho que ninguém nos ouve: fica horrível).

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Por estes motivos é claramente difícil lidar com sobras de carnes cá por casa. A de porco é a que mais me desagrada, mas também não sou grande fã das outras. Mas às vezes sobra. E quando sobra muita carne, comê-la sempre fria não é viável. E por isso é preciso improvisar.

Da última vez que fiz aquele porco de que já ninguém pode ouvir falar, sobrou bastante. Comi a maior parte dele frio, em almoços solitários, mas mesmo assim continuava a sobrar. Até a um jantar, sem planos nem preparo, em que resolvi usar o dito.

arroz de sobras

Numa panela, fiz um refogado com cebola e alho, juntei uma cenoura em cubos pequenos e um punhado generoso de ervilhas congeladas. Acrescentei uma folha de louro, meio copo de vinho branco e meio de água, na qual dissolvi duas colheres de sopa de concentrado de tomate. Uma pitada de sal, a tampa e ficou a cozinhar.

Entretanto, liguei o forno a 160ºC. Numa frigideira, salteei, em azeite, uma cebola cortada em meias luas finas, até que estivesse dourada. Retirei e reservei.

Comecei a montagem, num prato de forno: uma camada de arroz (que também tinha sobrado), uma camada generosa do porco, por cima o refogado de legumes, outra camada de arroz e, por fim, a cebola reservada.

Foi ao forno uns minutos, só para aquecer o porco e o arroz e para que os sabores se envolvessem uns nos outros.

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Foi servido quente e apesar de me saber ligeiramente a porco requentado, o molho e a cebola ajudaram a que isso não me incomodasse tanto. Ao Zé não incomodou minimamente – ele gostou muito e repetiu a dose.

Não é uma ideia transcendente nem nada do outro mundo. É só uma forma fácil de aproveitar sobras, daquelas que ou são em pequena quantidade e não garantem uma refeição ou daquelas a que não sabemos bem o que fazer. O molho de legumes, além de minorar a secura do porco (que, por ser re-aquecido, estava obrigatoriamente mais seco), acrescentam sabor e nutrientes ao prato.

Eu fiz com porco, mas acho que ficaria ainda melhor com sobras de frango estufado, por exemplo, que é húmido e tem aquele molho delicioso para ensopar o arroz.

era só para vos dizer

… que aquelas bolachinhas ali de baixo também ficam muito boas feitas com iogurte grego. E substancialmente menos calóricas! Eu experimentei, fiz uma versão com parmesão, alho e orégãos e ficaram óptimas. Levou foi mais um bocadito de iogurte, aí 1/4 de medida mais uma colher de sopa, no total. Mas boas, boas!

Há dias em que ser foodblogger é chato. Chato, pronto. Porque não é sempre que há paciência para cozinhar, parar tudo, montar cenário, fotografar e só depois, então, comer. Às vezes apetece ir logo para a mesa, sem pensar em ângulos, luz, background ou apresentação. Mas depois há o grilo falante, que nos “puxa” as orelhas: mas não achas que esta receita é boa para o blog? Que outras pessoas vão gostar? Deixa de ser preguiçosa, vá!

E eu deixo. Monto tudo, tiro dezenas de fotografias, todas à mesma coisa, faço esperar o marido e o estômago. Às vezes não vale a pena. Quase sempre, mais de 2/3 das fotografias são lixo. Mas é assim, é preciso tirar dezenas para conseguir aquela que vale a pena, que fica mesmo bem, que nos satisfaz.

Estas bolachas foram, até hoje, o meu maior dilema fotográfico. Fi-las num dia à noite, em que estava sozinha, para acompanhar uma sopa quente e reconfortante. A luz da noite é sempre uma desgraça para fotografar e, por isso, resolvi tratar das fotografias das bolachas no dia seguinte. Elas aguentavam-se bem e assim sempre tinha luz do dia.

Mas no dia seguinte só me apetecia, lá está, aquecer uma sopa, pegar nas bolachas e almoçar. Pensar em ter de as fotografar estava a fazer-me considerar não almoçar – guardo-as para amanhã, ainda estão boas e pode ser que a paciência fotográfica esteja de volta. É aborrecido, quando isto acontece. Quando só nos apetece pegar na bolacha, na sopa, na salada e comer, esquecer que existe blog, receita ou fotografia.

Mas o grilo, mais uma vez, falou mais alto. E eu levantei-me, montei as coisas, pus a sopa a aquecer e lá fui, máquina em punho, fotografar as bolachas. Das fotografias, aproveitei uma. Uma só. É quando basta, eu sei. Acho que as outras reflectiram o meu estado de espírito impaciente – e foram todas para o lixo.

bolachas de parmesão

Bolachas de parmesão, alecrim e azeitonas
(receita retirada daqui)

Ingredientes:

  • 1 medida de farinha
  • ½ colher chá de sal
  • 3 colheres sopa de queijo parmesão, finamente ralado
  • 1 colher sopa de alecrim fresco picado
  • 2 colheres sopa de azeitonas pretas, em fatias finas
  • 2 dentes de alho ralados
  • 3 colheres sopa de azeite
  • ¼ medida de natas
  • 1 colher sopa de leite (se necessário)
  • sal marinho para polvilhar

Pré-aqueça o forno a 200ºC.

Misture bem todos os ingredientes secos – farinha, sal, alecrim, parmesão, azeitonas e alho. Adicione o azeite e, com um garfo, misture tudo até que toda a massa tenha aspecto de migalhas.

Acrescente as natas e, com a mão, envolva. Se a massa estiver muito seca, acrescente um pouco de leite.

Estenda a massa numa folha de papel vegetal, que caiba na sua assadeira, até obter um rectângulo fino (pode usar um silpat em vez do papel vegetal). Pode precisar de enfarinhar o rolo à medida que vai trabalhando. Com uma faca ou cortador de massa, corte o rectângulo grande noutros mais pequenos, mas sem os separar – este passo é só para que, ao arrefecer, seja mais fácil partir a massa nas bolachas individuais. Salpique com sal marinho (ou outro à sua escolha) e leve ao forno até que estejam douradas.

Retire para cima de uma grade e deixe arrefecer.

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Eu assei as minhas no silpat e não fiquei muito feliz com o resultado. A cozedura não é igual, as bolachas não douram de forma homogénea. Por isso, prefiro estender a massa sobre papel vegetal, colocar numa assadeira e assar assim. Por mais prático que seja o silpat – e é -, em termos de forno não é a mesma coisa.

As bolachas são muito saborosas e são um excelente acompanhamento de uma sopa, esmigalhadas sobre uma salada ou mesmo servidas com tapenade de azeitona ou outro paté. São certamente receita a repetir, sobretudo dado o alívio de saber que da próxima as posso comer logo, sem ter de arranjar paciência para as fotografar. Foodblogger, às vezes, sofre!

Já há algum tempo que deixei de cozinhar ao domingo à noite, de duas em duas semanas, a receita de 4 por 6 a ser publicada no dia seguinte. Era sempre uma correria, um stress, um não saber bem que fazer, os dois sentados na cozinha, um de computador, outra de faca. Comecei a guardar receitas que ia fazendo e que me pareciam encaixar-se nos princípios da ideia: receitas simples, baratas, equilibradas.

4por6

Confesso também que tenho tido muito menos tempo do que há umas semanas atrás e que, por causa disso, tenho repescado algumas receitas. Mas faço-o com critério e tento escolher sempre coisas que encaixem em termos da refeição como um todo e que, para além disso, sejam das minhas favoritas. Não há mal nenhum em recordar coisas boas e eu não sou nada apologista de não repetir receitas. Aliás, acho que, mesmo com os milhões de coisas novas que ainda não experimentei e que vou encontrando todos os dias pelo mundo culinário fora, nunca deixarei de comer arroz de atum, sopa de lentilhas ou lasanha de carne.

Para começar, a receita repetida: uma salada de legumes grelhados, fresca e bem temperada, como se querem as saladas. Gosto muito dela – para além de ser muito versátil, pode ser preparada com antecedência. Grelham-se todos os legumes e guardam-se no frigorífico, numa caixa bem fechada, até à altura de usar. Aguentam-se uns dois, três dias assim.

Salada de legumes grelhados II

Salada de legumes grelhados

Ingredientes

  • 1 beringela média
  • 2 courgettes pequenas (são mais saborosas e tenras)
  • 1 pimento vermelho médio
  • 1 alface pequena
  • azeitonas pretas
  • azeite
  • vinagre balsâmico
  • sal
  • alecrim
  • hortelã

Corte a beringela, as courgettes e o pimento em tiras não muito grossas. Coloque-as numa vasilha e regue-as com um duas colheres sopa de azeite, sal grosso e alecrim picado. Envolva bem e grelhe (no forno, no grelhador de fogão ou no das tostas), de ambos os lados, até que estejam tenras mas não completamente cozidas. Retire, deixe arrefecer um pouco e corte em pedaços mais pequenos. Reserve.

Lave bem a alface, seque muito bem e corte em tiras. Coloque nos pratos, fazendo camas para os restantes vegetais.

Faça uma vinagrete com azeite, vinagre balsâmico e acrescente-lhe três ou quatro folhas de hortelã finamente picadas. Coloque então os legumes grelhados sobre a cama de alface, regue com a vinagrete e polvilhe com as azeitonas descaroçadas e cortadas em rodelas finas.

Salada de legumes grelhados I

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Para prato principal, uma receita adaptada, outra vez, da Olive de Maio 2009. Acho que nunca uma revista me prendeu desta forma nem me fez fazer tantas receitas de um só número. Estou rendida.

A receita original usa ovos escalfados, coisa de que não sou muito fã. Então resolvi pegar nos ingredientes e fazer uma espécie de huevos rotos, de que gostamos muito.

4 por 6 25 Maio I

Ovos rotos

Ingredientes:

  • 600g de batatas novas
  • 80g de bom chouriço (usei um de Barrancos muito saboroso)
  • 6 ovos
  • salsa
  • azeite
  • sal

Comece por preparar as batatas: corte-as ao meio e, se muito grandes, em quartos (eu usei batata nova, do género das fingerling). Coza-as então em água temperada com sal, até que estejam tenras mas nã completamente cozidas. Escorra bem e reserve.

Numa frigideira larga, aqueça 3 colheres sopa de azeite e frite as batatas que cozeu, virando para que dourem de todos os lados. Acrescente o chouriço cortado em tiras finas e deixe fritar 1 minuto, mexendo de vez em quando. Abra um espaço no centro, acrescente 1 ou 2 colheres de azeite e estrele os ovos, deixando a clara tostar ligeiramente dos lados, mas sem que a gema fique rígida. Desfaça-os então, com a ajuda de duas colheres de pau, e misture-os com as batatas e o chouriço. Sirva de imediato, polvilhado de salsa picada.

4 por 6 25 Maio II

Não sendo propriamente saudável, deve ser comida em pequenas quantidades (e daí a inclusão de uma salada tão substancial, como entrada). Mas os sabores misturam-se e combinam tão bem que, ocasionalmente, é um pecado perdoável, uma pequena indulgência. Sabe-me sempre a Espanha, a tapas comidas em noite quente.

Para sobremesa, ainda há espaço no orçamento para umas cerejas, nacionais, que já andam por aí, doces e a saber a Verão.

E venham então as contas:

4 por 6 25 Maio

Não estão incluídos a salsa, o alecrim e a hortelã porque vêm directamente dos vasos na minha varanda. Os ovos incluídos são um pouco mais caros do que os ovos mais baratos do Continente porque são ovos de galinhas criadas em liberdade e ao ar livre. Normalmente compro ovos caseiros aos lavradores que encontro no mercado. Quando, por alguma razão, tenho de os comprar no supermercado, evito sempre os de aviário. Além de não serem tão nutritivos, são postos por galinhas engaioladas, que vivem em condições deploráveis. O sofrimento animal mexe muito comigo e, portanto, prefiro os ovos das galinhas felizes, como diz a Fer.

 

(nota: nas fotografias, a salada de legumes grelhados tem, para além de alface, rúcula. Aqui, por uma questão de preço, omiti a rúcula. Mas se houver espaço no orçamento, poderá incluí-la. Pode, inclusivé, enriquecer a salada, diminuindo a quantidade de alface e misturando outros verdes, como espinafres, canónigos, rúcula ou agriões)

Já não era a primeira vez que me punha a pensar naquelas pessoas que são capazes de se sentar, com papel e lápis, uma calculadora talvez, vá, e inventar receitas de bolos, muffins, cupcakes, eu sei lá. Dessas coisas com química certa, que não se fazem de uma pitada aqui ou ali. Pensava muitas vezes que se compreendesse a química subjacente a cada um desses tipos de preparação, seria capaz, também, de me sentar e criar coisas novas. De combinar sabores como a vontade mandasse. Devia haver um livro sobre isto, pensava eu, invariavelmente enquanto conduzia e as receitas se iam sucedendo na minha cabeça mais depressa que os carros na estrada. Um livro que me ensinasse a proporção das coisas, como é que nunca ninguém se lembrou disto? A divina proporção da química culinária.

Isto é monólogo antigo (eu não falo propriamente sozinha, mas tenho conversas inteiras comigo mesma, dentro da minha cabeça), daquelas coisas que me ocorriam de vez em quando, sempre que via, sei lá, uma receita de muffin que me agradava parcialmente e pensava em trocar a por b mas sem saber muito bem como. E nunca fui daquelas pessoas de lançar mãos ao trabalho sem certezas, correndo o risco de sair tudo estragado. Não pelo medo de errar – esse chateia-me pouco. Pronto, chateia-me qualquer coisa, mas não o suficiente para me impedir de tentar. Mas pelo medo de estragar e desperdiçar ingredientes. Eu sei que foi assim que se inventaram todas as receitas do mundo, que não nasceram de um momento inspirado prontinhas para o papel e para o prato, mas que querem? Manias, não sou capaz de me lançar para fase de testes sem ter uma base relativamente segura de confiança no que de lá vai sair.

Mas, dizia eu, monólogo antigo. Daqueles que vêm e vão, sem hora marcada nem grande regularidade. Já tinha até comentado com o Zé o quanto eu gostava de perceber essas químicas. E eu a pensar como é que nunca ninguém se tinha lembrado de escrever um livro sobre estas coisas… Até ao dia em que, já não sei bem onde, nem como, descobri que ia ser publicado. E brevemente!

Entretanto publicou-se. Michael Ruhlman, senhor de nome e respeito, atendeu aos meus pedidos (devo ter enviado umas ondas telepáticas quaisquer, chatas e insistentes) e escreveu Ratio. Acrescentei-o logo à wishlist e andava a ver se o comprava. Entretanto, o marido viajou e de Chicago lá me chegou a minha cópia. E é basicamente “Proportion for Dummies“. Porque aquilo é básico. Tão básico que aqui a preguiçosa até lá podia ter chegado, mais coisa menos coisa, sozinha, se se tivesse dado ao trabalho de sentar e perceber. Mas quem é que tem tempo para isso? Não é muito mais fácil que um senhor se tenha dado ao trabalho de sentar, perceber e depois escrever um livro a explicar? Eu achei que sim.

Agora já posso inventar. Tenho as fórmulas básicas para pão, pasta, bolos vários, massas de tarte, panquecas e várias outras coisas. O livro, de subtítulo “The simple codes behind the craft of everyday cooking” é uma ajuda preciosa para quem gosta de fazer mais do que seguir receitas. Arriscar, inventar, misturar sabores nunca antes misturados. Bem, quase todos. Cá em casa garanto-vos que não vamos chegar ao extremo de fazer queques de chocolate com bacon, como eu já vi por essa blogosfera fora.

Para experimentar o livro e ver se era realmente de confiança, resolvi fazer uma receita muito simples, sem ousadias, só para começar. Fiz muffins de limão, vulgares mas muito saborosos. A proporção resultou. Da próxima já faço, sei lá, muffins de limão com azeite de alecrim. Ou outra coisa qualquer.

 muffins de limão I

Muffins de limão

  • 225g farinha
  • 225g leite
  • 113g açúcar
  • 113g manteiga (derretida)
  • 113g ovos (2 ovos grandes)
  • 2 colheres chá de fermento
  • 1 colher chá de sal
  • raspa e sumo de 1 limão pequeno

A proporção dos muffins e pães rápidos é 2 partes de farinha, 2 partes líquido, 1 parte ovo e 1 parte gordura. O açúcar varia com a receita, mas não deve ultrapassar 1 parte.

Pré-aquecer o forno a 175ºC. Misturar farinha, açúcar, sal e fermento. Num outro recipiente, misturar leite, ovos e manteiga. Bater com um batedor de varas até obter uma mistura homogénea. Juntar aos ingredientes secos e misturar com o batedor de varas o suficiente apenas para combinar. Acrescentar então a raspa e sumo de limão.

Untar formas de muffin com manteiga ou óleo (eu prefiro um nadinha de óleo, porque deixa os muffins mais leves). Deitar a massa nas formas (rende aproximadamente 10 muffins) e levar ao forno por aproximadamente 30 minutos ou até que um palito inserido no centro saia limpo.

muffins de limão II

Como eu disse, os muffins não tinham nada de extraordinário. Mas eram simples e bons, óptimos para o lanche ou para o pequeno-almoço. E são tão húmidos que se aguentam muito bem durante uns dias, desde que guardados num recipiente hermeticamente fechado.

O livro mostrou-me que a receita funciona. Agora é só fechar os olhos e misturar. Muffins de morango com manjericão? De queijo e pimento assado? É só deixar a cabeça ir! Estar por dentro dos segredos das proporções culinárias abre um mundo de possibilidades!

 

A Elise, do maravilhoso Simply Recipes, também leu e gostou. Podem ler review dela aqui

Não gosto de desperdício. De deitar fora talos de beterraba, água de cozer legumes, molhos que sobram no fundo das panelas, cascas de laranjas, limões e toranjas (desde que descobri como é fácil aproveitá-las). Quando faço assados ou estufados tendo a guardar os molhos, as águas, tudo o que possa ser reutilizado, acrescentando sabor e nutrientes a sopas, arroz ou outros pratos. O desperdício faz-me verdadeiramente confusão.

Foi por isso que quando, no fim do jantar, vi que tinha sobrado imenso molho deste frango, decidi guardá-lo no frigorífico e reutilizá-lo.

Dois dias depois, hora de almoço e eu sem ideias. Sem carne ou peixe no frigorífico. Peguei no molho e resolvi improvisar um biryani. Sinceramente, não sei se foi feito como devia, da forma tradicional, correcta ou mais adequada. Nem me preocupei em saber. Improvisei, fui fazendo, juntando isto e aquilo à medida da minha vontade. E ficou bom, que era o importante.

Biryani I

Num tacho, cozi arroz basmati (eu já tinha algum cozido, cozi mais um pouco para ter quantidade suficiente; caso não haja sobras de arroz, pode cozer-se o arroz no próprio molho), em água e sal. Quando estava quase no ponto, escorri e reservei.

Numa panela com um fio de azeite, alourei uma cebola em cubos pequenos, dois dentes de alho picados e um quarto de pimento vermelho em cubos. Deixei alourar um pouco e acrescentei então uma cenoura pequena em cubinhos, meia courgette também em cubos e um alho francês em meias-luas finas. Juntei um tomate pequeno, bem maduro, cortado em cubos, e 100ml de caldo de legumes. Juntei sal, cominhos em pó e um pouco de paprika, tapei e deixei cozinhar cinco minutos.

Juntei alguns cogumelos brancos, o molho guardado e mexi bem. Quando estava tudo no ponto (meio cozido, meio crocante) acrescentei o arroz. Misturei tudo muito bem e deixei que os sabores se misturassem e o arroz ficasse bem quente. Servi então, polvilhado de castanha de caju picada.

 

Biryani II

Nós gostamos muito destas refeições de arroz com legumes e o toque indiano do molho deu a este prato um sabor especial. Ficou apurado, saboroso e saudável, cheio de legumes e sem carne. Sabem-nos bem estas refeições assim, não menos nutritivas mas mais saudáveis, sem abdicar do sabor – comer comida só porque é saudável, ignorando que qualquer refeição deve, acima de tudo, ser saborosa, é um mau princípio.

a romã que foi meloa

A sorveteira, suada e chorada que foi, não tem tido, este ano, muito uso. Foi deixando de caber no congelador e por isso deixou de lá morar. E a espera de 15 horas passou a implicar 15 horas de preparação e mentalização em vez do “apetece-me sorvete, ora vamos lá fazer um” e com isso veio antes o “deixa lá, fica para a próxima”.

Mas recentemente fiz uma limpeza geral ao congelador e a sorveteira voltou a ter espaço e regressou a casa. Era preciso, agora, encontrar uma receita decente para inaugurar a temporada!

Há uns dias vi pela net uma receita de gelado ou sorvete de romã e decidi logo fazê-la. Mas, chegada a hora, vi que o sumo de romã que tinha já não estava bom. Como não eram horas de sair para ir comprar mais, resolvi improvisar. E o sorvete de romã virou sorvete de meloa, perfumado e delicioso!

sorvete de meloa I 

Sorvete de meloa com hortelã
(adaptado de The Perfect Scoop, de David Lebovitz)

Ingredientes:

  • 1 kg meloa, limpa de pevides e de casca
  • 100g açúcar
  • 1 colher sopa de sumo de limão
  • 2 colheres sopa de vodka (Lebovitz sugere champanhe)
  • 6 folhas grandes de hortelã

Coloque todos os ingredientes menos a hortelã no copo da varinha mágica e triture bem. Leve ao frigorífico até estar bem frio. Acrescente então a hortelã picadinha e leve à sorveteira, de acordo com as instruções do fabricante.

sorvete de meloa II

Quando era pequena, comia quase sempre gelado de banana e de limão. Mas no Esquimó também havia de melão e de vez em quando havia troca. O sabor intenso do melão surpreendia-me sempre. Mesmo em Roma, em pleno Giolitti’s, com todos os sabores do mundo à minha frente, comi gelado de meloa, daquela cor-de-laranja e doce. É coisa estranha, que não se explica. Mas que sabe bem, que sabe a Verão e a calor, que refresca e faz feliz.

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