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Quando eu era pequena, as melhores férias do mundo passavam-se no meio da Serra da Freita, numa casinha minúscula sem água canalizada, sem televisão, sem praticamente nada. Ainda me lembro de nem sequer haver luz - nas casas e nas ruas - e dos candeeiros de petróleo que usávamos. Lembro-me do Verão em que pintámos os móveis e do Verão em que se caiou a casa - tanto esmero posto na chaminé deixou-a branquinha e o resto da casa cinzenta porque a cal não chegou. Lembro-me dos amigos que lá tinha, hoje casados e pais de filhos apesar de serem praticamente da minha idade. Lembro-me de ir aos sapos, ao milho, às amoras. Dos banhos de rio, da louça lavada na água corrente, dos peixes e do fantasma das cobras de água. Da água gelada, como ainda hoje o é. Eram férias em que me sujava, em que caía e espetava espinhos nos pés, em que corria livre do nascer ao pôr do sol.

E lembro-me também dos regressos a casa. Dos banhos quentes que sabiam tão bem, depois de uma semana de banhos gelados tomados no rio. E das comidas que se faziam em casa, no dia de regresso. Era, invariavelmente, um domingo à noite, chegávamos tarde e não havia paciência para grandes cozinhados ou muitas coisas em casa. Fazíamos pizza, às vezes, naquelas bases redondas, congeladas, tipo bolacha, com molho caseiro e chouriço vindo da Serra, do porco do ano anterior. E fazíamos arroz de atum com ovos escalfados.

Nunca pensei muito no conceito de comfort food. Mas hoje, em minha casa, sempre que estou mais cansada ou mais em baixo dou por mim com desejos, sempre, de arroz de atum com ovos escalfados. Ovos nem sempre há, mas arroz e atum nunca faltam. Quando eu era pequena, o arroz de atum era feito pelo meu pai. Há muitos anos que não como o arroz de atum dele. A minha versão é diferente, desenvolvida a partir da dele. Não é a verdadeira, mas é, actualmente, a minha comfort food por excelência. Comida de uma tigela, com uma colher, enroscada no sofá. Não há melhor para ânimos cansados ou desanimados. E é tão fácil!

Num tacho médio alouro dois dentes de alho picados, numa dose razoável de azeite. Junto-lhes uma cebola média, em meias-luas muito finas e uma folha de louro. Quando a cebola estiver dourada, junto-lhe meias-luas de cenoura, bem finas também. Duas latas de atum em azeite, parcialmente escorrido (se estiverem bem deprimidos podem juntar mais azeite deste do atum - fica mais calórico mas também fica muito mais saboroso). Meio copo de vinho branco até reduzir. Uma medida de ervilhas congeladas e polpa de tomate, só um bocadinho. Quando estiver tudo já bem envolvido, os sabores bem misturados, junto uma medida de arroz (ultimamente tenho usado o basmati - usei-o num dia em que não havia do outro e o resultado agradou-me muito), que deixo saltear brevemente na mistura. Junto duas medidas e mais um bocadinho de água, acerto o sal, tapo. Quando o arroz estiver quase pronto mas ainda havendo um pouco de água, abro um ovo por pessoa, sobre a superfície do arroz. Este timing depende da forma como gostarem do ovo - eu prefiro-o mais cozido, por isso junto-o mais cedo. Se o quiserem mais líquido, juntem-no mais tarde.

Não é o prato mais fotogénico, por mais que se tente. Mas é daqueles que mais bem me fazem à alma e que como feliz, saboreando também as memórias que me traz.

 

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Pizza é uma coisa que faço muito em casa. E que raramente como fora. Custa-me, nos dias de hoje, comer pizza fora de casa quando a minha, caseira e fresca, me sabe sempre muito melhor. Normalmente só como pizza fora de casa quando feita em forno a lenha. Porque têm aquele saborzinho especial.

Mas como eu dizia, pizza é coisa que faço muito. Com massas diferentes, molhos diferentes, ingredientes não muito diferentes. Não vario muito, gostamos da minha versão. Além disso sou daquelas pessoas que abomina certas coisas na pizza - sobretudo o ananás.

Não vario no recheio, mas vario nos outros básicos: experimento quase sempre uma receita de massa diferente, em busca da massa perfeita. Ainda não a encontrei, mas também ainda não experimentei todas as que tenho guardadas, à espera. Quero uma massa saborosa, que fique fina e crocante, que acrescente algum sabor, sem deixar de ser uma boa base para se trabalhar uma receita por cima. Enfim, quero muita coisa de um só pedaço de massa. Mas vou continuando a tentar.

Quando não me apetece nada de complicado ou que me dê mais trabalho do que aquele que quero ter, regresso a esta receita de massa. Porque é simples, porque é a máquina de pão que a faz e porque sei que funciona. É deste livro e eu recomendo. Sobretudo a quem tiver máquina de pão, porque fica tudo tão mais fácil!… Acho que também dá para arregaçar as mangas e sová-la à mão, mas eu sinceramente ainda tenho alguns problemas com o descobrir o prazer de o fazer. Mas eu chego lá!

Para dentro da máquina vão, então, e pela seguinte ordem:

  • 1 medida de água morna
  • 1 colher de chá de sal
  • 3 colheres de sopa de azeite
  • 3 chávenas de farinha para pão
  • 1 pacote de fermento biológico (11g)

Normalmente junto-lhe também uma colher de sopa de alho em pó e outra de orégãos ou manjericão, conforme me apetece. A massa fica com muito mais sabor. A receita dá para duas bases de uma massa fininha. Esta foi feita para mais pessoas, por isso usei a receita toda. Estendi a massa, pu-la num tabuleiro e cobri com o básico: molho de tomate do mais simples (alho salteado em azeite, uma lata de tomate em pedaços, sal e orégãos, deixa reduzir, manjericão fresco), cogumelos frescos laminados, um bom chouriço em pedaços pequenos e uma cebola grande, às meias luas, salteada previamente em azeite, até ficar bem dourada (parece estranho, eu sei, mas não imaginam como fica delicioso! Dá um sabor bem diferente à pizza). Por cima, neste caso, fatias finas de presunto, mozzarella e orégãos. Foi ao forno até estar pronta. Saiu e foi coberta com rúcula e um fio de azeite.

Esta é uma versão mais fresca e para a fazer mais leve, às vezes, corto o chouriço e os cogumelos do recheio. Fica deliciosa! E bonita!

Macaroons de chocolate

Esta receita está ali guardada há muito tempo. Hoje reparei que há muito tempo que não faço um post sobre doces e por isso fui buscá-la. Foi feita por alturas do Natal, quando há sempre imensas claras a sobrar, dos doces cheios de gemas. Faz-me muita confusão deitar comida fora, mas, ao mesmo tempo, não sou nada fã dos típicos doces de claras, como farófias ou suspiros. Congelei-as, enquanto procurava uma receita que me agradasse, para as usar.

No Natal, o meu marido ofereceu-me o livro Nigella Express, da Nigella Lawson. Tem receitas muito interessantes e, entre elas, esta, de macaroons de chocolate. Nunca tinha feito macaroons, mas já tinha lido muito sobre a dificuldade de os fazer, o drama de os fazer lisos e perfeitos, os recheios no ponto certo, enfim, uma série de coisas demasiado complexas para o meu gosto. Mas estes eram muito, muito fáceis, com poucos ingredientes e técnicas básicas. E usavam as claras que eu tinha a mais! A receita perfeita, portanto!

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Macaroons de Chocolate

Ingredientes:

  • 2 claras
  • 200g amêndoas moídas
  • 30g cacau
  • 175g açúcar de confeiteiro

Aqueça o forno a 200ºC e forre um tabuleiro com papel vegetal. Misture as claras (sem bater) com as amêndoas moídas, o cacau e o açúcar até ter uma mistura pegajosa mas relativamente homogénea. Encha uma grande vasilha com água bem fria e mergulhe nela as suas mãos antes de enrolar a massa em pequenas bolas do tamanho de nozes. Terá de repetir o passo de molhar as mãos várias vezes durante o processo - isto impede a massa de se colar às mãos. Alinhe as bolinhas no tabuleiro e leve ao forno por 11 minutos. Não é fácil ver quando estão prontas, porque terão sempre um ar mole. No entanto, quando arrefecerem ficarão mais rígidas, ainda que húmidas e moles no interior (como deve ser).

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Eu fiz mais do que uma receita, porque tinha mesmo muitas claras. E para experimentar variações, fiz uma parte com nozes moídas, em vez das amêndoas. Ficaram com um sabor mais forte, mas igualmente bons.

Não posso dizer que esta seja uma receita de comer e chorar por mais. São uns bolinhos muito bons e com uma consistência muito agradável, mas são, sobretudo, uma excelente forma de aproveitar claras, diferente das habituais. Desse prisma, foram, para mim, uma excelente descoberta e sei que repetirei a receita mais vezes. Com outros ingredientes, talvez. Experiências, experiências…

Bem… Eu prometi, não foi? Pois é. Mas desta vez é um pesto ligeiramente diferente. Da mesma marca, ainda. Quem me ler ainda pensa que estes senhores me pagam por tanta publicidade. E, embora fosse uma atitude simpática (*hint, hint*), não é o caso. A verdade é que os produtos deles são de excelente qualidade e quando vi mais este, novo, nas prateleiras, não pude resistir. Este, também em frasquinho, é pesto de rúcula. Que, feito em casa, é dos meus favoritos, sobretudo se feito com nozes em vez de pinhões, dos quais, confesso, não sou grande fã. Gosto do azedinho da rúcula, mais suave e subtil que o dominante sabor do manjericão. Estava guardado à espera da experiência.

Em mais um dos meus solitários almoços, então, abro eu o frasco. Como este pesto não é 100% de rúcula, tem também uma percentagem de manjericão (relativamente pequena, mas relevante para o sabor, ainda assim), confesso que me desiludiu. Não como pesto em si, mas como pesto diferente do tradicional. Na verdade, o sabor é praticamente igual ao do outro pesto. Não me lembro se haveria diferença de preço, mas de sabor praticamente não há. Portanto, pesto de rúcula continuarei a fazer o meu, em casa.

Outra experiência falhada foi a pasta usada neste prato. Há uns dias dei por mim sem pasta em casa. Como passei, por esses dias, por um Lidl para ir comprar iogurtes, trouxe de lá uma caixa de tagliatelle para desenrascar. Da primeira vez que a cozinhei o molho era mais forte e não foi tão perceptível o sabor da pasta. Desta vez, com o pesto (e pouco, que eu não gosto da pasta muito encharcada em molho), as azeitonas pretas aos bocadinhos e o parmesão ralado, senti o sabor da pasta perfeitamente. E, sinceramente, julgo que talvez tivesse sido mais saboroso pôr molho na caixa de papelão e comê-la. É verdadeiramente má e não volto, nunca mais, a comprá-la.

Esta refeição foi, portanto, uma desilusão. Salve-se a fotografia e uma ideia que, no futuro, com a pasta certa e o pesto de rúcula caseiro, dará, certamente, um prato delicioso.

E fica escrito, assim, o último post com pesto que tinha em arquivo. Mas prometo voltar à carga em breve. Até porque o Zé viaja amanhã e estará fora a semana toda, o que equivale a cinco almoços e quatro jantares sozinha. Haja pesto! E paciência, aí do vosso lado! :)

Eu sei que parece haver aqui um tema, uma fixação. Qualquer dia pensam que não como mais nada ou que também misturo pesto nos doces. Mas não é nem tema nem fixação e não, não ponho pesto nos bolos. Se bem que até podia dar em algo interessante…

Estas receitas são apenas uma série de coincidências ou de coisas rápidas que faço de vez em quando e que desta vez têm acontecido próximas umas das outras. Posso prometer que esta não é a última, ainda tenho ali em “arquivo” pelo menos mais uma. E se me derem uns dias se calhar mais outra.

Na verdade tudo isto tem uma razão. Cá em casa só eu é que gosto de pasta com pesto. Associando isso ao facto de as fotografias do almoço ficarem muito mais bonitas que as do jantar, por causa da luz, e andarão por aqui coisas simples, rápidas, feitas com os ingredientes que andam cá por casa e que só eu como.

Depois há as receitas que contrariam isto, como esta. Há uns dias não me apetecia mesmo, mesmo nada cozinhar. Mas estávamos os dois com fome. Como a opção de mandar o Zé para a cozinha não é muito viável (porque eu acabo a ter de cozinhar também, nem que seja da bancada, ou porque só jantamos daí a duas horas), resolvi fazer algo rápido e simples, que nos pusesse sentados em frente ao filme, a relaxar, depois de um dia que tinha sido longo e cansativo.

No dia-a-dia sou uma cozinheira de improviso. Raramente tenho tempo ou paciência ou me lembro com a antecedência suficiente para fazer, por exemplo, uma marinada. Ou então faço daquelas em que bastam cinco minutos para estar tudo temperado. Nesse dia tinha uns peitos de frango no frigorífico, que tinha descongelado e que tinha mesmo de usar. Queria uma coisa para petiscar, para comer com as mãos. Cortei-os às tiras e pu-los numa vasilha. Lá para dentro deitei duas colheres de sobremesa de pesto já pronto (o outro, do post anterior). Misturei tudo muito bem para que a carne ficasse bem envolvida e deixei descansar os ditos cinco minutos. Que foi o tempo que o grelhador demorou a aquecer. Quando este estava bem quente, pus lá as tiras de frango. Como eram finas, demoraram muito pouco de cada lado. Tirei-as no ponto, para não ficarem muito secas. Ficaram deliciosas! Não precisaram de mais sal, de alho, de limão, de nada. Aquelas duas colheres de pesto trataram de 3 grandes peitos de frango e deram-lhes um sabor especial, diferente. O Zé, que não gosta de pesto por causa do queijo, adorou!

Quinze minutos depois de ter começado estavamos nós sentados a ver o filme e a petiscar o frango, azeitonas pretas temperadas em casa, cenoura aos palitos, pão e batatas fritas de pacote, daquelas Lays Gourmet, que são deliciosas e parecem mesmo as que a minha avó fazia para levar para a praia, quando eu era pequena. Uns morangos madurinhos, comidos à mão, inteiros e sem açúcar, e a noite foi calma e deliciosa. Ah, o filme também era excelente! Às vezes sabe tão bem manter as coisas simples e rápidas (mas sempre saborosas!) e usar o tempo para outras coisas…

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Cá em casa nunca, mas nunca mesmo, frito batatas. Aliás, cá em casa nunca frito nada de nada. Pronto, nunca, nunca também será exagero, mas os dedos de uma mão chegarão para o número de vezes que faço fritos em casa, num ano. De vez em quando fugimos a esta regra e estas batatas fritas têm sido o pecado-frito de eleição.

Presentes de Chicago

Ultimamente, o Zé tem viajado muito em trabalho. E quando viaja lá leva ele uma lista de coisas que eu gostava de experimentar e que não encontro por cá. Quando vai aos Estados Unidos, sobretudo, é uma festa!

Da última vez esteve em Chicago. Pouco tempo, felizmente. Mas pouco tempo não dá para andar a correr as lojas à procura das estranhíssimas coisas que a louca da mulher pôs na lista. Mas dá sempre para encontrar alguns dos pedidos e para fazer o mimo com outros, ausentes da lista mas que farão igual sucesso.

Da última vieram as coisinhas da fotografia, com destaque para as pecans e macadâmias e para a caixa redonda de biscoitos, um pouco escondida. Eram deliciosos, da cadeia de lojas Trader Joe’s , orgânicos, com café e pepitas de chocolate. Escusado será dizer que duraram pouco…

Sinceramente nunca sei que lhe chamar. Não gosto muito de sanduíche, porque me apetece sempre escrever sandwich, e menos ainda porque cá por Portugal esta coisa parece ter género indefinido - ora é o sanduíche, ora a sanduíche. A sande ainda gosto menos, parece-me sempre que lhe falta qualquer coisa. O s, pois. Mas a sandes não melhora. Parece uma coisa plural usada em singular. Enfim, esquisitices minhas. Posso sempre chamar-lhe pão com coisas. Ou não lhe chamar nada, estar caladinha e usar a boca só para a comer. Ou o comer, pois.

Há uns dias o Daniel perguntava no seu Panela de Cobre qual era a nossa preferida (pela sanidade mental de quem vai ler este post, vou optar por me referir à coisa como “a sanduíche”). Eu respondi-lhe. Mas fiquei a pensar.

Ora, eu sou de luas. Ou melhor, de fases. A minha sanduíche preferida vai mudando, não consoante a estação, mas consoante, parece-me, os ingredientes de que mais gosto, a determinado momento. Que não são sempre os mesmos, claro está. Vão mudando com as descobertas, as redescobertas e as luas. A primeira de que me lembro era uma versão da tosta mista (o misto quente do Brasil) com presunto em vez de fiambre, um fio de azeite e orégãos. Uma tosta mista armada em fina, portanto. Mas deliciosa! Entretanto passei por mais dois ou três sanduíches, até chegar à de hoje. Que é muito simples, também.

Porque eu acho que uma sanduíche, a ser para fazer em casa, tem de ser algo simples e rápido, que alimente e seja agradável. Se for para demorar muito tempo, ser muito complexa, levar 26 ingredientes e mais 5 molhos, mais vale ir comê-la fora.

Daí as minhas serem sempre tão básicas. Esta é: pão do que houver (eu prefiro do de sementes: sésamo, linhaça, girassol, …), presunto em fatias finas, rúcula e pesto. Mais nada. O pesto pode ser caseiro, mas eu tenho sempre no frigorífico um frasco de uma excelente marca de que já falei e que uso para estas coisas. Abre-se o pão, barra-se um dos lados com pesto, põe-se o presunto por cima, a rúcula, fecha-se e come-se. Também se pode fazer a versão quente, com mozzarella entre o presunto e o pesto, levar à torradeira e só depois de derretido o queijo acrescentar a rúcula (que a rúcula na torradeira murcha e fica horrível). É tão bom! E fácil e rápido e nutritivo. Faz um almoço rápido, um lanchinho reforçado, um petisco. Dá pouco trabalho e muito prazer. Seja feminino ou masculino!

 

Hoje gosto de cuscuz. Mas antes não gostava. Não que ao longo da minha vida tenha comido muito cuscuz. Na verdade, é uma descoberta recente. Em casa dos meus pais nunca o comi. Portanto o cuscuz entrou na minha vida desde que saí de casa e comecei a explorar mais profundamente o universo dos alimentos estranhos. Estranhos porque diferentes, porque desconhecidos. E o cuscuz dentre eles.

Mas dizia eu que não gostava de cuscuz. E acho que era por culpa de não ter aprendido a gostar. Eu acho que os sabores se aprendem e se um sabor novo e diferente entra na nossa boca é preciso ensinar ao cérebro que aquilo é bom. Porque só podemos reconhecer como bom algo que já provámos antes. Ou que seja parecido com algo já provado antes. Senão o cérebro fica, como nós, como a boca, perdido na descoberta da novidade.

À medida que fui descobrindo o cuscuz, então, fui começando a gostar. Claro que ao mesmo tempo fui aprendendo a temperá-lo, a dar-lhe mais sabor e a combiná-lo melhor. O Zé ainda hoje não gosta. E da última vez que fiz cuscuz para os dois, resolvi nunca mais o fazer para ele. Brincou com a colher, empurrou daqui, empurrou dali, bebeu para engolir melhor - enfim, ele claramente não gosta. E depois de três tentativas, acho que chega de tortura. Fica o cuscuz só para mim.

Por ser tão rápido e versátil, costumo fazê-lo para o meu almoço. E normalmente faço a dobrar - isto é, dose para dois. Assim no dia seguinte já tenho almoço. E o cuscuz funciona lindamente quente ou frio, com sabores diferentes conforme a temperatura a que é comido. O cuscuz presta-se a tudo o que está no frigorífico. A minha versão do momento é sempre parecida, mas isso é tanto por falta de imaginação da minha gaveta dos legumes como por ter gostado tanto da combinação de sabores.

Na chaleira, pus água a aquecer. Numa frigideira salteei, num fio de azeite, alho picado. Juntei courgette e cenoura às meias-luas finas e um alho francês em fatias. Às vezes junto espinafres, também. E podem ser mesmo os congelados. Quando os legumes já estão ligeiramente macios, junto um pouco da água quente da chaleira. Tempero com sal, alecrim e menta frescos, picados. Numa tigela ao lado, já está uma medida de cuscuz numa medida de água a ferver. Volto aos legumes. Mexo ligeiramente, junto mais água se for preciso, acerto os temperos. Enquanto cozem, faço o molho: azeite (a olho e a gosto), sumo de um limão, mais menta fresca picada. Mexo vigorosamente, até estar ligeiramente emulsionado. Separam-se os grãos de cuscuz com um garfo e juntam-se os legumes. Nesta altura, juntei também umas 5 ou 6 azeitonas pretas cortadas em pedacinhos. Mistura-se tudo muito bem. Junta-se o molho e mistura-se muito bem outra vez. Está pronto! Divide-se em duas doses e come-se. À colher, que é como sabe melhor!

A outra dose, depois de fria, é guardada no frigorífico para o almoço do dia seguinte. Em que sabe tão bem como quente, senão mesmo melhor. Confesso-me, ainda, dividida! :)

Eu sei que o alecrim não é propriamente a erva típica do cuscuz. Mas é a minha erva-fetiche do momento, por isso vai alecrim em quase tudo. A verdade é que nesta combinação ficou delicioso e portanto é repetido.

De há uns meses para cá está no mercado, ao lado da senhora que normalmente me vende as frutas e legumes, um senhor muito simpático, com uma banca pequenina e improvisada, cheia de legumes caseiros e ervas frescas. Tenho lá parado todas as semanas e trazido para casa pequenas delícias, para além de uma pequena lição sobre esta ou aquela erva. Das mãos dele já trouxe menta, cebolinhas, beterrabas, favas, malaguetas e o alho francês mais tenro que já comi. Volto lá sempre - e ele deixa-me cheirar as ervas, aperta-as entre os dedos e conta-me como as planta. Perguntei-lhe pelo manjericão e ele disse-me que cá não se dá muito bem e por isso não tem. Mas tem tomilho e tomilho-limão, tem salva e três tipos de hortelã, tem erva doce e orégãos. E tem doçura na voz e no olhar.

Há duas semanas vim de lá com um quilo de favas, destas frescas e novas que se apanham agora. Não eram muitas, percebi eu depois de as descascar. Para a próxima serão mais. É que eu acho que as favas nascem na altura errada. Eu não como muitas, mas adoro creme de favas. Gosto mesmo, mesmo muito e acho que é a única coisa com favas que me apetece recorrentemente. Mas com o calor deste fim-de-semana que passou não apetecia nada sopa. E as favas a ameaçar murchar. Também não me apetecia nada congelá-las. O que fazer?

Ontem a tarde esteve mais fresca. Apeteceu-me um jantar daqueles que conforta o estômago - que bom, já posso usar as favas! E como são poucas, melhor ainda, não fico com um panelão de sopa no frigorífico, não vá o calor arrepender-se e decidir voltar!

As medidas são aproximadas. Como sempre que faço sopa, aliás. Acho que aquilo que vai para dentro da panela também não é muito importante, desde que não ofusque o sabor das favas, as estrelas do creme!

Numa panela com um fio de azeite, alourei duas cebolas médias grosseiramente picadas e quatro dentes de alho. Juntei-lhes duas batatas médias e dois pés de alho francês, com o máximo da parte verde possível (mas tirando a que já é demasiado dura, para que o creme não fique cheio de fios). Um quilo de favas (que depois de descascadas seriam aí uns 300g, medidos a olho), sal e um copo grande de água. Coze em fogo baixo por muito, muito tempo. Se tiver água suficiente posso até esquecer-me da panela no fogão.

Quando estava tudo muito bem cozido, juntei mais água e triturei muito bem com a varinha mágica. Passei então por uma rede e triturei novamente. Gosto de creme bem cremoso (passe o pleonasmo) e como não tinha tirado a camisa às favas não quis arriscar. Acertei o sal e pronto! Servi com cubinhos de bacon salteados numa frigideira sem nada, que acabaram por fritar na própria gordura até estarem crocantes.

O Zé olhou, olhou, provou e gostou. Não sem antes fazer mil perguntas sobre os quês e porquês! Eu fiquei feliz porque ainda sobrou creme para uma refeição! Já disse que adoro creme de favas?

Um dia memorável

Como vocês já devem ter lido aqui, a Fer está de visita a Portugal. E isso foi mote para um encontro muito especial com mais duas queridas e talentosas blogueiras: a Elvira e a Marizé. 10 horas, 4 blogueiras culinárias e 2 extremamente pacientes acompanhantes foram os ingredientes de um dia incrivelmente agradável e especial.

Ainda não tinha conhecido pessoalmente ninguém deste mundo. E ter podido conhecer estas três mulheres maravilhosas e tão talentosas foi um privilégio imenso. Três pessoas que eu admiro muitíssimo e com as quais pude partilhar momentos divertidos e enriquecedores, rir e aprender muito. Mas o dia não teria sido o mesmo sem a presença dos queridos Leandra e Luís, que tiveram a imensa paciência de nos aturar e que são duas pessoas muito simpáticas e divertidas.

Meninas, foi um prazer imenso conhecer-vos e poder partilhar tanto em tão pouco tempo. Gostaria imenso de repetir, seja onde for, seja quando for. Por mim era já amanhã! Como a Elvira, também nunca vou esquecer este dia incrível!

A fotografia foi gentilmente cedida pela Fer: obrigada, Fer!

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