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Passear pela feira é recuar alguns anos no tempo. Se ignorarmos as caixas de plástico, tudo o resto, cheiros, sabores, pessoas e cores se manteve quase igual nestes (muitos) últimos anos. Eu só a conheço dos últimos 27, mas tenho a certeza de que antes era igual.
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Em certas zonas da feira, o século XXI ainda não entrou. As balanças são de pesos, o caldo verde é moído à mão e os enormes cestos ainda se enchem de ameixas, pêssegos e maçãs. Daquelas cheias de pó, que apetece limpar à manga da camisola e morder mesmo ali, com o sumo a escorrer pelo queixo e o sol a bater na cara. As maçãs das lavradeiras são as maçãs da minha infância. Muito vermelhas, muito duras, quase verdes mas já maduras e sempre, sempre cheias de pó. As senhoras nos seus lenços e aventais floridos de mil e um bolsos, de onde saem notas, moedas e sacos, ainda me chamam minha querida, ainda fazem descontos como se fossem só para mim, ainda têm sorrisos e caras curtidas do sol, mãos de terra e olhos meigos.
A feira, a minha feira, é esta. Aquelas duas filas de lavradeiras, longe das bacias e das jarras pós-modernas, das roupas de comunhão e dos fios de ouro. É a feira que fica entre o peixe e as galinhas e patos, onde nunca vou porque não gosto de os ver engaiolados.
E dessa feira trouxe ontem ameixas tão maduras que meto uma na boca, empurro-a com a língua contra o céu da boca e ela explode num mar de sumo. Tomates tão maduros que nem os consigo cortar e vão dar o melhor molho de tomate do ano. Feijões de debulhar, para a sopa. E maçãs. Maçãs duras, quase verdes, cheias de pó. Maçãs com sabor a infância.
Era sempre assim, a minha feira. As frutas, os legumes, o peixe. E no fim, já a caminho de casa, um bolo coberto de açúcar.





Belíssima postagem. Deveria dizer: como sempre.
A feira da minha terra também ainda é assim e tem as tais maçãs, um cheiro inimitável à fruta madura no ar, os sorrisos lindamente enrugados das vendedoras de hortaliças, uns velhotes a vender crivos artesanais, cestas e cântaros… Coisas das nossas terras que me enchem de ternura e de felicidade.
Obrigada, querida Mariana.
Beijinhos.
Mariana, que texto lindo!
Me fez sentir saudades das feiras livres que frequentei por anos e anos, no Brasil.
muitos beijos!
Parabéns pelo texto e fotos, estão magníficos
Estes locais são maravilhosos e deveriam manter-se sempre assim!
bjs
maravilhosamente belo!!
Que belíssimo texto Mariana! Fez-me sentir como se estivesse na feira contigo a percorre-la de um lado ao outro.
Beijocas
Lindo post! ‘Essa’ feira também é a ‘minha feira’.
Vantagens de não se viver nas cidades. Todos os domingos do mês temos feira por perto. No primeiro em Azeitão, no segundo em Pinhal Novo, no terceiro em Coina, no quarto na Moita e quando o mês nos brinda com o quinto domingo lá vamos nós a caminho de Sto Antª da Charneca.
Nas ‘minhas’ feiras as maçãs também ainda cheiram as maçãs e as galinhas não têm ar de 15 dias. Os miúdos deliciam-se com a bicharada, as ‘vendeiras’ escondem os ovos debaixo da banca e a ASAE entretêm-se apenas a controlar os ‘reprodutores de DVDs’.
Compram-se fardos para alimentar e fazer as camas dos animais maiores e cheira a febras.
Da ‘minha’ feira também não se sai sem um bolo doce, claro!
[...] 20, 2008 por Mariana Daquele dia na feira havia ainda cá em casa 4 tomates a explodir de maduros. Olhar para eles só evocava imagens de [...]