Ser operada ao joelho, por mais simples que seja a coisa (e foi) e não traga complicações (que não trouxe), traz sempre – e ainda bem – algumas vantagens. Afinal, não são todos os fins-de-semana a dois que têm quatro dias! E estes foram quatro dias cheios de mimos, de séries e filmes que vimos enterrados no sofá e de comidas fáceis, fonte de conforto para estes dias cheios de chuva.
Normalmente cá em casa a cozinheira de serviço sou eu. Não só porque tenho um reportório mais alargado, mas também porque o faço com prazer (e porque sou mais rápida – se vos dissesse o tempo que o amor da minha vida leva a picar uma cebola…). À semana, nos dias em que ele chega a horas decentes, vamos os dois para a cozinha – eu preparo o jantar enquanto ele esvazia a máquina da louça lavada e a enche da suja, enquanto contamos ao outro o dia que passou.
Este fim-de-semana fomos os dois para a cozinha. Ele queria cozinhar e eu fui dar apoio e instruções. Cozinhámos chilli con carne, prato recorrente cá em casa, por ser fácil, rápido e delicioso. Fazer um prato a quatro mãos pode demorar mais tempo do que a duas, mas é, também, uma experiência muito mais divertida. Eu ofereci-me para picar todas as cebolas, cenouras e pimentos, porque sabia que, para o Zé, isso seria a parte mais demorada da equação. Ele fez tudo o resto, seguindo as instruções. Eu só aproveitei uma ou outra altura em que ele não estava a olhar para provar e acertar os temperos. Um prato destes não tem nada de complicado, mas convêm provar muitas vezes ao longo da preparação, para garantir o melhor sabor. E para isso, infelizmente, não há instruções. O treino de fazer educa a língua e o dedo nas pitadas disto ou daquilo. O primeiro chilli do meu marido estava delicioso e rendeu duas refeições neste fim-de-semana longo.

Ontem fomos novamente os dois para a cozinha. O Zé andava com vontade de comer lasanha, mas como nunca comemos uma lasanha congelada de que gostássemos (tanto que já desistimos de experimentar) tinha de ser a minha lasanha. Aprendi a fazê-la há alguns anos, mas a receita foi, entretanto, evoluindo e tomando forma própria. Hoje é a minha lasanha, que não tem absolutamente nada que saber, mas que é aquela que nos sabe melhor.
O ragú leva muitos legumes, dos que houver à mão. Pode levar courgette, alho francês, com jeito e bem picadinhos talvez até bróculos. Este levou cenoura e pimentos vermelhos, 1:1 com a carne. Cebola e alho na panela, com azeite. Os legumes, a carne, o tomate. Sal e orégãos e deixa-se cozinhar em lume brando pelo máximo de tempo possível (quanto mais tempo, melhor saberá – desta vez, o nosso só teve direito a 30 minutos, o que é pouco) e no lume mais baixo possível. Manjericão fresco picado já no fim, depois de desligado o fogão.
O resto é ainda mais fácil. Um tabuleiro de forno, um pacote de massa seca (da que não requer pré-cozedura), um pacote de bechamel, mozzarella ralada em casa. Tenho o hábito de diluir o bechamel com leite – o de pacote costuma ser muito espesso e assim poupo nas calorias, porque nunca uso o pacote todo. Junto orégãos a esta mistura. No fundo do tabuleiro, duas colheres do bechamel diluído e por cima a primeira camada de massa. Carne, mais bechamel, queijo. E repete, até acabar a carne. A última camada (aprendi eu depois de várias asneiras) é melhor sendo de carne, bechamel e queijo, sem massa em cima. Assim tudo o que está por baixo coze mais homogeneamente, num forno a 180ºC. Está pronta quando um garfo espetado no meio atravessar com facilidade todas as camadas. Mas deixem a massa ligeiramente al dente, para que não seja uma papa sem graça.
Perguntou o Zé se a receita já estava no blog. Disse-lhe que não, que receita de lasanha toda a gente tem e que esta não tem nada de especial. Mas tem, disse ele. É boa, é simples, é tua. Tem de especial para nós porque é aquela de que nós gostamos. E portanto cá está, a minha lasanha sem nada de especial, mas que é minha, nossa. E que nos sabe tão bem.


Hmmm que maravilha de comidinhas…
As melhoras do joelho
Muito bom aspecto, já comia um bom bocadinho.
Beijinhos
Linda,
Não sabia que tinhas sido operada. Espero que esteja a correr tudo às mil maravilhas.
Acho que o Zé tem toda a razão: é receita é tua, fazes como mais ninguém, é saborosa, logo blogável. Além disso, dás umas dicas bastante úteis, mesmo para quem já tem a sua receita de lasanha. Por exemplo, a junção dos vários legumes à carne e a dica do bechamel diluído (eu costumo por sumo de limão, natas – ups – e noz moscada). É que, muitas vezes, a propósito de uma receita que achamos que já toda a gente conhece, transmitimos conhecimentos importantes…
bjs enormes
Gostei imenso do teu texto, da ternura do teu Zé, da tua lasanha … dito assim até parece fácil!
Parece fácil estar no pós-operatório, por muito simples e bem que tenha corrido a operação, e parece fácil fazer lasanha.
Uma rápida e segura recuperação e muitos fins-de-semana ternurentos, assim a dois!
Mas é assim mesmo, Mari*.
Estive a conversar** com meu pai há alguns dias atrás sobre comidas sem muito “frufru”, e ambos chegamos à conclusão de que a verdadeira magia que há nas mãos de todo bom cozinheiro fica evidente nos pratos mais simples***.
E, convenhamos, “comfort food” é a melhor coisa do mundo, principalmente quando feita a dois e se recuperando quietinho em casa****
Beijos,
Mandy.
* Posso chamar você assim?
** Não escrevemos assim aqui no Brasil, mas cada vez que leio os seus posts fico DOIDA de vontade de trocar de ir a Portugal só para escrever bonito assim ^^
*** Vide Alex Atala e o seu Aligot, que nada mais é que um purê de batatas com queijo (nunca tive a chance de provar, mas já li muito sobre essa receita). Mas é O queijo, A batata… e O cozinheiro, hehehe
**** Melhoras para você, lindinha!
Nham nham, também já marchava. E esse truque de deixar a última camada sem massa não conhecia. Vou experimentar da próxima vez que fizer.
E parece mesmo deliciosa!
Jinhos e boa recuperação para o teu joelho.
A minha é em quase tudo igual… lol
Apenas o leite é de arroz, a massa é da fresca e os legumes estão presentes em maior quantidade que a carne,. De resto ‘bate tudo certo’, desde o diluir do bechamel e a adição dos oregão até à última camada sem massa. Achei imensa piada!
Euu acheii muitoo apetitosaa ameii…..
Melhoras do joelho!
Nunca fiz lasanha antes, tenho comprado feita, mas esta receita sugere que eu experimente, logo darei os resultados, ate breve
Espero que esteja tudo bem e boa boa recuperação!
a lasanha deve ter ficado uma maravilha <3