Já não era a primeira vez que me punha a pensar naquelas pessoas que são capazes de se sentar, com papel e lápis, uma calculadora talvez, vá, e inventar receitas de bolos, muffins, cupcakes, eu sei lá. Dessas coisas com química certa, que não se fazem de uma pitada aqui ou ali. Pensava muitas vezes que se compreendesse a química subjacente a cada um desses tipos de preparação, seria capaz, também, de me sentar e criar coisas novas. De combinar sabores como a vontade mandasse. Devia haver um livro sobre isto, pensava eu, invariavelmente enquanto conduzia e as receitas se iam sucedendo na minha cabeça mais depressa que os carros na estrada. Um livro que me ensinasse a proporção das coisas, como é que nunca ninguém se lembrou disto? A divina proporção da química culinária.
Isto é monólogo antigo (eu não falo propriamente sozinha, mas tenho conversas inteiras comigo mesma, dentro da minha cabeça), daquelas coisas que me ocorriam de vez em quando, sempre que via, sei lá, uma receita de muffin que me agradava parcialmente e pensava em trocar a por b mas sem saber muito bem como. E nunca fui daquelas pessoas de lançar mãos ao trabalho sem certezas, correndo o risco de sair tudo estragado. Não pelo medo de errar – esse chateia-me pouco. Pronto, chateia-me qualquer coisa, mas não o suficiente para me impedir de tentar. Mas pelo medo de estragar e desperdiçar ingredientes. Eu sei que foi assim que se inventaram todas as receitas do mundo, que não nasceram de um momento inspirado prontinhas para o papel e para o prato, mas que querem? Manias, não sou capaz de me lançar para fase de testes sem ter uma base relativamente segura de confiança no que de lá vai sair.
Mas, dizia eu, monólogo antigo. Daqueles que vêm e vão, sem hora marcada nem grande regularidade. Já tinha até comentado com o Zé o quanto eu gostava de perceber essas químicas. E eu a pensar como é que nunca ninguém se tinha lembrado de escrever um livro sobre estas coisas… Até ao dia em que, já não sei bem onde, nem como, descobri que ia ser publicado. E brevemente!
Entretanto publicou-se. Michael Ruhlman, senhor de nome e respeito, atendeu aos meus pedidos (devo ter enviado umas ondas telepáticas quaisquer, chatas e insistentes) e escreveu Ratio. Acrescentei-o logo à wishlist e andava a ver se o comprava. Entretanto, o marido viajou e de Chicago lá me chegou a minha cópia. E é basicamente “Proportion for Dummies“. Porque aquilo é básico. Tão básico que aqui a preguiçosa até lá podia ter chegado, mais coisa menos coisa, sozinha, se se tivesse dado ao trabalho de sentar e perceber. Mas quem é que tem tempo para isso? Não é muito mais fácil que um senhor se tenha dado ao trabalho de sentar, perceber e depois escrever um livro a explicar? Eu achei que sim.
Agora já posso inventar. Tenho as fórmulas básicas para pão, pasta, bolos vários, massas de tarte, panquecas e várias outras coisas. O livro, de subtítulo “The simple codes behind the craft of everyday cooking” é uma ajuda preciosa para quem gosta de fazer mais do que seguir receitas. Arriscar, inventar, misturar sabores nunca antes misturados. Bem, quase todos. Cá em casa garanto-vos que não vamos chegar ao extremo de fazer queques de chocolate com bacon, como eu já vi por essa blogosfera fora.
Para experimentar o livro e ver se era realmente de confiança, resolvi fazer uma receita muito simples, sem ousadias, só para começar. Fiz muffins de limão, vulgares mas muito saborosos. A proporção resultou. Da próxima já faço, sei lá, muffins de limão com azeite de alecrim. Ou outra coisa qualquer.

Muffins de limão
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225g farinha
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225g leite
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113g açúcar
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113g manteiga (derretida)
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113g ovos (2 ovos grandes)
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2 colheres chá de fermento
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1 colher chá de sal
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raspa e sumo de 1 limão pequeno
A proporção dos muffins e pães rápidos é 2 partes de farinha, 2 partes líquido, 1 parte ovo e 1 parte gordura. O açúcar varia com a receita, mas não deve ultrapassar 1 parte.
Pré-aquecer o forno a 175ºC. Misturar farinha, açúcar, sal e fermento. Num outro recipiente, misturar leite, ovos e manteiga. Bater com um batedor de varas até obter uma mistura homogénea. Juntar aos ingredientes secos e misturar com o batedor de varas o suficiente apenas para combinar. Acrescentar então a raspa e sumo de limão.
Untar formas de muffin com manteiga ou óleo (eu prefiro um nadinha de óleo, porque deixa os muffins mais leves). Deitar a massa nas formas (rende aproximadamente 10 muffins) e levar ao forno por aproximadamente 30 minutos ou até que um palito inserido no centro saia limpo.

Como eu disse, os muffins não tinham nada de extraordinário. Mas eram simples e bons, óptimos para o lanche ou para o pequeno-almoço. E são tão húmidos que se aguentam muito bem durante uns dias, desde que guardados num recipiente hermeticamente fechado.
O livro mostrou-me que a receita funciona. Agora é só fechar os olhos e misturar. Muffins de morango com manjericão? De queijo e pimento assado? É só deixar a cabeça ir! Estar por dentro dos segredos das proporções culinárias abre um mundo de possibilidades!
A Elise, do maravilhoso Simply Recipes, também leu e gostou. Podem ler review dela aqui.





Ai, meu Deus, mais um livro pra minha wishlist…
A propósito, graças ao seu encorajamento, eu fiz os cookies de praliné de castanha de caju (são maravilhosos). Obrigada
Beijos!
Já está na lista de livros pendurada no frigorífico à mercê de quem procure ideias para me presentear…

Eu sou assim, amiga do meu amigo e gosto de facilitar a vida cá ao Esparguete.
Tb tenho muitos monólogos com moi meme… mais do que às vezes gostava!
Pelo menos uma fórmula já sei.
Beijinhos.
As fórmulas podem ser e são uma preciosa ajuda para o êxito de muitos pratos, mas também podem ser, e são, um entrave redutor à descoberta e à criatividade (cria-se o de morango e mangericão, mas não um “outro” muffin)..
Veja-se o que os velhos “receituários familiares”, afinal livros de fórmulas desde tirar nódoas até cozer feijão, fizeram à evolução da cozinha popular portuguesa nos sec. XIX e 1ª metade do XX.
Luís, de acordo! Mas como eu não pretendo ser motor dessa evolução – nem tenho competências para tal – as fórmulas servem-me para criar (ou “criar”, se quiser) as coisas à medida dos meus gostos e vontades. E como, como referi no texto, não me lanço à descoberta sem saber que tenho grande probabilidade de sucesso, sem fórmulas estaria ainda mais travada na minha liberdade e na minha criatividade.
As fórmulas emprestam-me uma liberdade que eu não tinha quando me limitava a seguir receitas já testadas por outrém.
Vou experimentar… têm óptimo aspecto e parecem-me bem simples de fazer.
Beijinhos
Olá Mariana,
Claro que tens toda a razão!
É, aliás, por essa minha aversão às ditas fórmulas que me “estatelo ao comprido” em quase tudo o que é doce.
Já me vejo aflito para conseguir publicar um docinho por mês (meta que me impus, senão nem isso), não porque não tente mas porque ficam sempre assim tipo aberração…
… mas às vezes, muito lá de vez em quando, acontece o milagre! Se calhar, ter de passar por tanta porcaria entretanto, não compensa de facto, mas lá que dá um gozo!
Também quero acrescentar este à minha colecção, não conhecia! Obrigada pela partilha.
Mariana, é pura verdade, às vezes a gente quer inventar e no final sai aquela meleca!!!
O muffin ficou uma graça!
Limão é uma delícia e acho que dá um sabor todo especial a bolos, scones, tortas, muffins e o que mais inventarmos.
Vou pesquisar sobre o livro, obrigada pela dica!
Beijocas!
Olá Mariana,

Ora aí está uma coisa na qual eu também tenho pensado últimamente.
Se nas receitas salgadas não me importo de inventar e experimentar coisas novas, já nas doces, nem arrisco pois tenho a certeza que sai desgraça na certa.
Também tenho que procurar esse livro pois parece-me muito útil, pena ser em inglês pois eu sou um bocado naba para traduções, mas uma coisa aqui, outra ali eu hei-de lá chegar
Esses muffins estão apetitosos e dão pano para mangas
Beijocas
Moira
Mariana,
Adorei o post, não só porque me identifiquei com o que dizes (tal como tu, às vezes não arrisco mais pois detesto desperdiçar comida), mas também por descobrir que já existe esse tal livro que responde às minhas dúvidas e inseguranças.
Quanto ao debate criatividade vs fórmulas, em primeiro lugar, todos sabem que no que toca à pastelaria é essencial seguir algumas regras, pois esta área da gastronomía é bastante mais científica do que a dos salgados. Em segundo lugar, as regras podem funcionar como um desafio à criatividade, tudo depende do cozinheiro. A sabedoria nunca foi entrave ao desenvolvimento do espírito criativo, antes pelo contrário.
beijos enormes e saudosos (muito)
Eu também sentia a falta de conhecer esses mecanismos. Saber algumas regras básicas sempre foi um entrave para mim e nunca arrisquei muito nas massas por causa disso. Obrigado pela dica!
mariana que bonitos estes queques.
obrigada por estas dicas . beijinhos e bom im de semana