Confesso que fiquei muito chateada e um pouco envergonhada quando li este post da Ana Elisa. A princípio não parecia nada de novo – alguém tinha usado uma fotografia dela, sem pedir autorização nem sequer atribuir créditos à autora. Roubado, portanto. Nada de novo porque, infelizmente, é uma coisa que acontece todos os dias, pela internet fora. Não só nos blogs de culinária – onde há roubo de receitas e de fotografias, cópias não autorizadas, posts com receitas sem referência da proveniência, num grande desrespeito pela propriedade intelectual – mas em todo o lado. Afinal, pensa meio mundo, se está na internet é da comunidade, pode-se chegar e usar sem pensar duas vezes.
Tudo isto é grave, preocupante e muito triste. Mas, como eu disse, não é novo. Só que ao ler o post da Ana até ao fim e abrir o link dos ladrões (pode ser propriedade intelectual, mas é roubo na mesma) é que percebi que a situação era mais grave ainda. Não se tratava de um blog, como é habitual. De alguém a quem, por mais que custe, até se pode pensar dar o benefício da dúvida – há mesmo muita gente que desconhece a existência da propriedade intelectual e o facto de que o que está na internet não é “de todos”. Tratava-se da Compal, empresa portuguesa líder de mercado. E foi aqui que a vergonha surgiu. Uma empresa portuguesa, líder no seu ramo, que terá certamente um enorme departamento legal, a roubar propriedade intelectual? A roubar uma fotografia a um blog, sem pedir autorização nem atribuir direitos autorais (agora, depois do e-mail da Ana, já está lá uma referência à origem da foto, mas continuam sem pedir autorização)? É, no mínimo, escandaloso. E só tenho pena que a Ana Elisa não tenha decidido processá-los. Era o que eu teria feito.
Coisas destas acontecem, infelizmente, todos os dias. E não vamos mais longe, fiquemo-nos por aqui, por esta micro-esfera dos blogs de culinária. Todos os dias se vêem roubos de propriedade intelectual. Porque copiar uma receita no blog sem citar a fonte é roubo de propriedade intelectual. Seja tirada de um livro, de um outro blog, de um site qualquer. A receita não é vossa? Digam de onde veio. Foi apenas inspirada noutra? Digam qual. Não tem menos valor por isso. Afinal, já muito pouca coisa é verdadeiramente nova, no mundo da cozinha.
E eu acho, sinceramente, que já é altura de haver respeito pelo trabalho dos outros. De se parar com os atalhos, as vias fáceis. E de se deixar de usar a falta de informação como desculpa, numa altura em que, no mundo ocidental, só é mal informado quem quer. Ou quando convém.





Mariana, Este texto podia ter sido escrito por mim, é exactamente o que penso… é uma vergonha!!
No mesmo dia em conversa com um amigo, ele disse-me que “nós” ligados a determinadas profissões é que nos preocupamos com os direitos de autor e com os plágios… que os “outros” nem sabem o que isso é… e eu expliquei-lhe que o blog é como a casa de alguém… vais lá, gostas dos móveis mas não os levas para tua casa…. não me parece que o conceito de “roubo” seja assim tão difícil de perceber.
Beijinhos,
Carlota
É um vergonha mesmo, e olhando para o site da Compal gostaria de saber onde foram eles buscar (ou roubar) as fotografias das outras receitas. O estilo das fotografias é completamente diferente, se roubaram uma, talvez tenham levado mais.
E tenho pena, agora estou na dúvida, porque é daquelas empresas que compro quase sempre, os produtos deles são bons, produzem em Portugal, e agora não me apetece comprar produtos deles!
Mariana,
confesso que também me senti envergonhada. A Compal?!!!
Vindo da Compal o assunto é grave!
Mas por toda a net se encontram situações destas, há blogs e sites que vivem exclusivamente do conteúdo das postagens dos outros.
Há duas coisas importantes a considerar. Uma prende-se com a responsabilidade de alertar (ou processar, para quem prefere gastar dinheiro e energia) a empresa para o facto de terem conteúdos protegidos por direitos de autor no seu site. A outra consiste no facto de terem um webdesigner dotado do habitual poder da negligência que se limita a fazer uma pesquisa no Google para construir um banco de imagem para receitas.
Duvido que a Compal pretenda tirar partido do trabalho alheio, mas há certamente negligência. Não cometamos o entanto o erro de julgar a marca sem saber a história toda. Um webdesigner é pago para criar e manter um website e parte-se do princípio que este será honesto e que todos os conteúdos por si formatados se encontram livres de direitos de autor.
No lugar da autora, contactava a Compal no sentido de alertar para as implicações legais desta prática e não para lhe creditarem a imagem. Eu cá vou continuar a beber o meu Compal Pêssego, mas no dia em que roubarem textos ou fotos (o que é pouco provável, por definição) aquele webdesigner corre o risco de perder o emprego.
E agora uma licença Creative Commons aqui para o Caos na Cozinha?
Celso,
A autora enviou e-mail para a Compal e creio que estes nem lhe responderam. Creditaram a imagem (como creditaram as outras, provavelmente para evitar mais problemas), mas continuaram a usá-la, sem autorização da autora.
E, mesmo que a culpa até seja do webdesigner (que acredito que seja o caso), é o nome da Compal que está em jogo, com tudo o que isso implica. A Compal tem algum dever de “inspeccionar” o trabalho do web designer, para garantir a qualidade do produto.
Além disso, a Compal foi, posteriormente, alertada (pelo tal e-mail) e continuou a usar a imagem sem autorização da autora – e aqui já não me parece que tenha sido decisão do web designer.
Eu também não estou a pensar deixar de consumir Compal. Mas acho que estas coisas devem ser denunciadas.
Bravo! Eu não diria melhor!
beijos
PS – certamente não será o web designer quem abre os e-mails dirigidos à Compal. Isso talvez acontecesse se a Compal fosse uma empresa da “liga dos últimos”, o que não é o caso, embora esta sua atitude seja bem “piquena”….
Subscrevo as palavras das minhas queridas amigas e envergonho-me igualmente. A questão para mim não é apenas legal, mas sobretudo moral… O problema é que parece que como é possível tirar as imagens e as receitas, tal pode-se de fazer… Como diz a Carlota, lá porque se gosta de algo na casa de alguém não quer dizer que se leve para a nossa. Mesmo que caiba na mala. Digo eu.
Bj grande
Concordo com tudo quanto aqui foi dito. Sou uma grande defensora da protecção dos direitos de autor. Talvez por ser da área da comunicação e do marketing, não sei.
Censuro a 100% o roubo de imagens e textos de outros. Além das questões de ética dajacentes ao tema, acima de tudo, e como diz a Suzana, impõe-se a questão moral.
O problema é que talvez haja muita gente por ai que nem sabe o que isso é, e mais, faz-se valer pelo trabalho dos outros.
Neste caso especifico, e tratando-se de uma empresa de renome em Portugal, ainda pior é. Não imputando culpas a ninguém, as boas práticas profissionais regem-se por códigos deontológicos e de conduta e qualquer violação dos mesmos deverá ser sempre condenada, principalmente pelos consumidores que são o garante do seu funcionamento.
Fiquei realmente decepcionada pela atitude da Compal e acho que devemos sempre denunciar estes casos e cada vez mais alertar para este tipo de situações.
Civismo e moralidade precisam-se!
corrijo: “adjacentes”
Sabes, Margarida, acho que tens razão. Há muita gente que não sabe. Mas nos dias de hoje nem isso é desculpa.
Coincidência, uns dias depois de ter escrito este post, encontrei uma fotografia minha num blog. Pedi para que fosse retirada, uma vez que não me tinha sido pedida autorização e que a fotografia era minha e estava protegida pelas leis de protecção da propriedade intelectual. A fotografia foi retirada, mas eu fui acusada de ser egoísta. E fiquei perplexa.
Se eu tirasse uma camisola, uma carteira, um livro a essa pessoa, sem pedir, ela provavelmente faria queixa de mim à polícia, por furto. Mas roubar a minha fotografia já não faz mal e eu é que sou egoísta por exigir a sua retirada.
Acho que é urgente explicar às pessoas que a propriedade intelectual é tão de cada um como uma carteira, um livro, uma casa.
Mariana,
muito obrigada pelo apoio! Há poucos dias atrás recebi um email da empresa se desculpando e dizendo que tiraria a imagem caso eu pedisse. Mas gostaria de saber se eles fizeram isso aos donos de todas as outras fotografias. Hoje em dia o que acontece muito é o próprio cliente do webdesigner/designer gráfico pedir para “usar imagem da internet, que é de graça”. Por mais que haja verba, a empresa quer sempre economizar. E, infelizmente, isso não é raro. Eu mesma, em meu trabalho, gasto muito tempo tentando explicar porque eu não vou pegar uma imagem que não é minha para colocar num folder. E já perdi cliente por causa disso. Decidi não processar por pura exaustão. Caso fosse uma ilustração, entretanto, o processo seria certo, pois esse sim é meu ganha-pão. Muito obrigada!
Beijos,
Ana Elisa.